Bartôbro [A BESTA 005]

by DESLIZE

/
  • Streaming + Download

     

1.
2.
08:30
3.
4.
5.
08:20
6.
7.
01:28

about

18OUT2014 @ Bartô do Chapitô (1) + Commonplaces
Noite d'A Besta e A.T.R. (2)

(1) www.facebook.com/barto.dochapito
(2) www.facebook.com/terapeuticadoruido

DESLIZE + Nuno Mangas-Viegas (3) + DV (4)
(3) opoemaacorda.bandcamp.com
(4) saraband.bandcamp.com

Artwork by BINAU (www.facebook.com/pages/BINAU/325903087423895)
---
Recorded live at Bartô do Chapitô (before Commonplaces, band from Cádis). A joint venture between A Besta & A.T.R. in 18OCT2014.
DESLIZE is an electro-acoustic exploration/improvisitation project, composed by two modified guitars (with small pieces placed to change its timber), circuit bending and sampling.

credits

released November 30, 2014

DESLIZE:
Hélder José - guitarra clássica modificada & DAKO circuit bending
João Sousa - guitarra acústica modificada & samples e electrónica

Convidados:
Nuno Manas-Viegas - leitura de poemas (3)
DV - leitura de poemas & circuit bending (4)


Mixed with REAPER Fm and Wavossaur (www.wavosaur.com)

tags

license

about

A Besta Lisbon, Portugal

A BESTA é um colectivo editoral independente de música alternativa, com princípios assentes na filosofia do it yourself.

contact / help

Contact A Besta

Streaming and
Download help

Track Name: DESLIZE & O Poema (A)Corda - eu vi do grande todo
Da natureza inteira atento escrutador,
Eu vi do grande todo o princípio e o fim:
o ouro potencial no fundo do torpor
E a matéria e o fermento a levedar. Assim,

Da alma de maternos flancos, o teor
de sua casa, o uso, a forma, eu entendi:
Juntos grão e bacelo prontos para a flor:
Húmida terra, eu vi o pão e o vinho em ti.

Que nada era, e Deus quis: vi que em algo o nada
se tornou, e inquiri onde estava apoiada
a vida universal, a geral harmonia.

Celebração e dor faziam um só nome,
e o eterno me chamou a alma e a fome
da alma. E então morri. E nada mais sabia.

(Conde de Saint-Germain)
(in Helder, Herberto (2010); As Magias - Poemas mudados
para português, Lisboa, Assírio & Alvim.)
Track Name: DESLIZE & DV - entilutado
Na procura incansável da demora,
Efemeramente me alegra a falha.
Negado a uma angústia redentora,
Inalando o tempo em aversão sorumbática.


Ao que após o engolfo de nada,
E sugado em caminhos do insano,
Me vi pois em antecâmara da loucura,
Deixado ao desamparo do que era humano.


Foi morto de convicções,
E abdicando de ser reformador de mim mesmo,
Que tive consciência da defunta potência cadavérica.

Ou ao que resta das insistentes palavras que rimam!
Matarei a linguagem em inalação:
Torrente de ódio a perseguir léxicos malditos.


Ao descanso da loucura aos cantos,
do sebo rectangular de uma mente só.
Num exercício podre de contemplação,
A uma semente de belo que (não) soube amar.


Esferas que vão passando pela vida,
Na demora ansiosa de lágrimas.
E após esse apagar choroso de costume,
Servirão os propósitos peçonhentos das larvas.


Porque há um tempo de esquecimento,
Que tem em si todo o desmodo da saudade,
Fumado na recordação masoquista,
D'um anátema vislumbrando a beleza.


Porque talvez de hoje ou de ontem,
Sigo em ruínas desavindas,
Vultos carnavalescos de uma carne...
Que não sente, dizendo:
Que esta carne não sente...
As dores que realmente corrompem.

Corrompendo.

(DV)
http://saraband.bandcamp.com/
Track Name: DESLIZE & DV - sem nexo
Quem, tu?
Tu! Que vens do pó das coisas acesas e termelicantes!
De todas as coisas que se agarram e contornam, apareces tu.

Vais chover de novo numa curva familiar,
Boomerang autista de permanência; opaca e inatingível.
Vais ficar em pranto estático, um dolo roxo de perdões.

Vais... Vais para a puta que te pariu!
Era o que me faltava agora também, estrebuchar no meu lixo.
O teu é tão mais verde de inquietude e medo; tão mais saboroso.
Quero roer-te os traumas e lamber-te as marcas das pancadas;

E quanto às feridas (quantas todas foram):
verter o sal das minhas lágrimas em riacho,
etilizar-te o sangue de ontem, numa defunta propagação de vida:
- Belisco-te os olhos no sussurro chuvoso d'ontem.

Mas tem que ser sempre aqui, neste lugar de almas tuberculosas,
de marquesas caducas de brilhantismo
do anteontem que queima a pele bolorenta
que aquece e distrai o corpo magoado pelo vento.

E o que é preciso:
É ver no tempo todo o segundo;
É despachar na completude da sua passagem todas as horas - as outras;
É baralhar todos os caminhos cruzados da ausência;
É raspar da alma as sobras de ilusão.

Deixar uma desilusão calma elevar-se em forma de vontade,
Definhar em encolhimento confortável e fixar uma promessa de jura impossível:
"todos os prantos possíveis passarão por mim a flutuar,
para que possa tocar no chão apenas enquanto peso morto."

(DV)
http://saraband.bandcamp.com
Track Name: DESLIZE, DV & O Poema (A)Corda - uma criatura
O Coração (Stephen Crane)

No deserto,
vi uma criatura nua, brutal
que de cócoras na terra
tinha o seu próprio coração
nas mãos, e comia...
Disse-lhe: «É bom, amigo?"»
«É amargo - respondeu -
amargo, mas gosto
porque é amargo
e porque é o meu coração.»


(in Helder, Herberto (2010); As Magias - Poemas mudados
para português, Lisboa, Assírio & Alvim.)