O Deserto Vivo [BESTA 002]

by O Poema (A)Corda

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about

ambiciosa simbiose entre a poesia e a música, 'o poema (a)corda' nasce de uma sede mútua. surge como questionamento e como resposta, como desejo e como ânsia de trilhar novos caminhos (...)

Em Outubro de 2014 lança-se digitalmente 'O Deserto' que se concretizou num concerto experimental na Estudantina de São Domingos de Rana. Desse concerto resulta então a experiência "O Deserto Vivo".

'O Deserto' : opoemaacorda.bandcamp.com
'Mãos...': opoemaacorda.blogspot.pt/p/album-maos.html
Poemas em: aequum-equidade.blogspot.pt
Apoio divulgação: jornadasalternativas.blogspot.pt

credits

released October 31, 2014

«“O Deserto” é um trabalho que reflecte, por um lado, uma procura: a
energia que impele à descoberta das formas rápidas – as coisas mínimas, que explodem no seu crescer. A palavra procurando-se, pensando-se, complicando-se.

Por outro lado exprime a ideia de fuga, as coisas escapando-se, furtando-se ao seu entendimento, à sua estatização pesada de corpo complexo. “O Deserto” trata das coisas no seu mínimo, muito rápidas, capazes de se encontrarem e perderem no seu trânsito constante, entrando e saindo de nós, entrando e saindo de si. É um trabalho que não anuncia as coisas, mas que enuncia as coisas no seu processo de auto-criação e entendimento.

Nuno Mangas-Viegas Set. 09»

Nuno Mangas-Viegas: textos, voz, outros instrumentos
João Mendes de Sousa: guitarra, textos, outros instrumentos

José Santos: guitarra acústica
Hélder José: DAKO (Circuit Bending) em 'Este é o Cálice'

Gravado ao vivo na Estudantina de São Domingos de Rana, no dia 12 de Abril de 2014.

Agradecimentos:
A Besta, Estudantina de São Domingos de Rana, Juan Vidal.

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A Besta Lisbon, Portugal

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Track Name: Enunciação do corpo sobre os laranjais
http://aequum-equidade.blogspot.pt/2013/11/enunciacao-do-corpo-sobre-os-laranjais.html


Anoitece sobre os laranjais...
turva-se a composição do rosto
a definição
o corpo fecha-se, talvez em cubo.
Impressionam os céus, sem luzes
para guiar os exércitos
- a memória ergue espadas onde plantara as glicínias -
Um tímido rumor de camas
anunciando o rasgo do corpo...
és tu quem sai, vasculhando pelas chaves
apagando dos mapas o sul das tardes
és tu a jangada que se arreda no mar
sonhando já o deserto milagre das ilhas,
negando a urgência da linguagem e o amargo sarau.
Implacável, este trémulo desenho da lembrança
quando as visões exemplares se diluem em teorema
nas paredes. o corpo: erma península ardida.
Anoitece.
e sou pedra, o furtivo pasto
a dura duna sobre a nuca...
a demorada escadaria para o altar
onde estás.


Posfácio:

Esta é a mão, o seu milagre
digo mão como quem repete um tempo
talvez o cansado início de uma rota
o momento da órbita que regressa ao ovo
Digo mão segurando o tempo
como quem colhe do peito alguma calma
talvez uma pequena casa abrigando a chama do vento.

Digo passado e uma súbita raiva se levanta
um candeeiro a petróleo pela noite
talvez a divindade tocando o rosto.

Digo vida e ei-la, vivente
como quem evoca séculos e séculos de migrações
para dentro do segundo, este...
Digo pedra e terra e mar
e o seu sabor aporta nos lábios
as suas temperaturas - graus de febre -
na mão tomadas.
Digo estrelas e alma
e a lágrima surge
o milagre da evocação emociona-se...

Digo: anoitece sobre os laranjais...
e tudo regressa à solidão do corpo
uno, ermo
nu


(Nuno Mangas-Viegas : Tavira, 7 de Setembro de 2013)
Track Name: O Deserto
http://aequum-equidade.blogspot.pt/2014/01/o-deserto.html

- Sou um corpo parado olhando, absorto, o deserto! dizia ele
eu não dizia nada. Ainda nada me rebentava nas mãos.
Era meio-dia. O sol queimava nos cabelos uma chama nova.
Caiam gotas gordas e frias sobre as costas ardendo,
caiam como caem os corpos de Homens maduros
violentamente...
corpos intactos e maduros de Homens caindo de algumas árvores.
era meio-dia.
Entravam rápidas nas costas,
acendiam por dentro os esconderijos, rebentavam
a sua luz nas hortas menos propensas.
Ele estava parado, absorto
partindo em pequenas porções para dentro das coisas do deserto.
- Sou um corpo parado, loucamente parado. dizia.
As coisas caiam-lhe nas costas vermelhas
entravam, como Homens maduros, violentos
caindo das árvores para dentro das costas. parecia doer.
Eu não dizia nada. e já nas mãos
cresciam sistemas, coisas do deserto complicando-se.
Entravam muito frias. ardia. fazia rir.
- Sou um corpo loucamente parado, complicando o deserto. dizia.
corpos inteiros caindo de árvores inteiras
duros por fora, com casca, caindo...
entrando, rebentando nos esconderijos a sua luz prometida,
iluminando as costas. uma chama nova.
Eu não dizia nada. e já tudo saia de mim, violentamente
contra as coisas do deserto. era meio-dia.
- Sou um corpo complicado, loucamente parado. Sou o deserto! dizia ele.
o deserto nada dizia.

(Nuno M.-V. Tavira: Jan/2014)
Track Name: A Parede
http://aequum-equidade.blogspot.pt/2013/05/parede.html

Agulhas investigando na carne
procurando o coração lilás dos corpos
coisas que têm nome
e são leves como penínsulas.
Desarrumam-se as aparições
nas molduras de ouro,
formas que se furtam ao dedo
e carregam o odor visceral do sonho.
Na parede grita o coração da parede...
Corpos com estátuas dentro,
esticando o braço ao horizonte
- o ébrio braço, o horizonte –
procurando os bandos de aves marinhas
que são povos derrotados em terra
leves, agora, como folhas, deslizam sobre o vinho.
Do vinho ficou o nome
e a caixa de madeira para guardar os ossos
quando já não servem para marcar os quadrantes.
O longo pescoço das flores, as fogueiras
a lâmina quente cortando a cara
pelas rugas.
Subestimaste os anos e as estações
deitaste na cama o rumor das bússolas
- os torneados corpos das bússolas –
Subestimaste o norte, o leme e a voz...

A carne rija das paredes
frias, como o nome das coisas que são frias
fala devagar misturando dialectos
explicando a evolução das cores
das mais quentes para as outras
e justificando a monstruosa textura da cara
quando pronta a morrer
A casa está vazia. Mas há uma voz.
Há um canto maior, um batimento
uma vibração cíclica
...talvez uma palavra repetida até ser água.
Procuro-te.
Escavo com agulhas a parede
até ao osso, até à estátua.
Procuro-te.
Procuro-te...
nm-v
Track Name: A Razão ascende relâmpagos
A razão ascende relâmpagos
Sobre os telhados que concebem estrelas,
imagens flanqueadas de sonho...
Há somente um instante na pausada
e sem razão intenção de respirar
que nos relembra que, dormindo,
Nenhuma crença é tão grande,
que uma vez selado a lacre o último olho
não cresça o instinto de arder
e fazer arder as paisagens de infância.

Rudimentares as mãos tremem...
Há somente um instante onde o ombro maternal
espreita pelos orifícios do tempo
e subjuga o pressentimento ao beijo.
Se eu soubesse que virias hoje
tinha aparado a barba
ou beijado outras pedras.

Tens nome de estação... e eu procuro-te
és montanha... e eu procuro-te
estendo os braços trémulos ainda... e procuro-te

Há somente um instante
em que a chegada não trará nome
apenas respiração
e desejo

(n.m-v.)

Saber-me-ás tão tarde quanto queiras...
Coladas ficaram as asas da carne
para não poder voar contra o vento.
E eu que perdi a substância do voo,
reconfortado na ausência de um sonho,
partia os cacos com que olhava a noite...
Preparo um recomeço cego para outro,
que não eu, que não fale ou sopre...
...colados os minutos
com que penduraste as horas (o tempo)
para sempre...

(joão mendes de sousa)